Deve ser possível chumbar alunos aos seis anos, dizem professores de escolas com mais insucesso

23/05/2017 23:21

Legislação impede que se retenha um aluno no 1.º ano de escolaridade, mas nas escolas com mais insucesso muitos docentes discordam desta proibição por considerarem que a retenção tem "vantagens".

 

A maioria dos professores das escolas do 1.º ciclo que têm taxas de insucesso escolar acima da média nacional considera que os chumbos são elevados no 2.º ano de escolaridade porque é proibido chumbar logo no 1.º. “A maioria afirmou discordar desta proibição”, revelam os autores de um estudo sobre a retenção no 1.º ciclo, divulgado nesta segunda-feira, promovido pela associação EPIS – Empresários pela Inclusão Social e coordenado pela ex-ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. A nível nacional a taxa de retenção no 2.º ciclo é de 10%.

 

Com base nos dados estatísticos do Ministério da Educação foram analisadas 3866 escolas, das quais 541 apresentaram níveis de retenção superiores à média nacional. A partir deste universo foi constituída uma amostra de 127 escolas, tendo sido entrevistados 127 directores ou coordenadores de escola e 245 professores.

 

Para 87% destes docentes, a retenção tem vantagens, mesmo em idades tão precoces como os sete anos. Esta opinião prevalece apesar de muitos dos inquiridos reconhecerem que a retenção implica riscos como a desmotivação e o desinteresse dos alunos. Feitas as contas acabam por considerar que a repetência é “única alternativa”, porque “dando mais tempo as crianças acabam por aprender e recuperar”, afirmam os autores do estudo da EPIS, intitulado Aprender a Ler e a Escrever em Portugal, entre os quais figura a também ex-ministra da Educação e actual conselheira do Presidente da República, Isabel Alçada.

 

Segundo os autores do estudo, o problema do insucesso e das dificuldades de aprendizagem está assim “naturalizado” nestas escolas – “nada há a fazer a não ser aceitar isso mesmo e conformar as práticas pedagógicas a essa realidade”.

 

E o que isto revela? “Que se regista uma enorme distância entre as percepções partilhadas e as práticas estabelecidas nestas escolas e as prática predominantes em muitas outras”, afirma-se no estudo, para acrescentar que existe ali também “uma enorme distância em relação aos debates científicos sobre o insucesso escolar e a repetência” e as consequências desta no percurso dos alunos (os estudos mostram que um aluno que chumba uma vez tem mais hipóteses de repetir de novo) e nas suas atitudes perante a escola. A investigação tem mostrado também que os chumbos são um preditor do abandono escolar precoce.

 

A influência da família

 

Porque chumbam os alunos logo no 2.º ano de escolaridade? A principal razão apontada é esta: “por não lerem bem e não terem atingido os objectivos estabelecidos no programa no que respeita à leitura e escrita”. Para os professores inquiridos, as causas para as dificuldades de aprendizagem na leitura estão directamente relacionadas com o agregado familiar dos alunos. Vêm de famílias que “não valorizam nem acompanham a vida escolar do aluno, por razões socioeconómicas e culturais”.

 

Ou seja, resumem os autores do estudo, “em Portugal, como em muitos outros países, o sistema de ensino instituído conta, para ter êxito, com as famílias”. Só que em Portugal, acrescentam, “o problema das condições familiares dos alunos coloca-se com particular acuidade, dados os défices de qualificação e de familiaridade com a escola por parte dos adultos”.

 

Mais uma vez, na opinião dos professores entrevistados, “a repetência é o elemento que permite compensar a ausência de condições familiares”. Em Portugal a retenção tem uma marca de classe: os inquéritos realizados aos alunos no âmbito dos testes PISA (Programme for International Student Assessment, na sigla inglesa), promovidos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico para aferir a literacia dos jovens aos 15 anos, mostram que 87% dos que já chumbaram naquela idade provêem de estratos socioeconómicos desfavorecidos. 

 

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