E os alunos, que contexto?

25/04/2017 12:10

Entre 2003 e 2012, verifica-se, na generalidade dos países, um enfraquecimento da associação entre o Estatuto Socioeconómico e Cultural (ESCS) e os scores, a qual, porém, é ainda acentuada em todos os países. A Finlândia é o país onde esta ligação é menos determinante (r=0,35 em 2003 e r=0,31 em 2012), o que pode significar um sistema educativo mais inclusivo. Na Suécia e Holanda, o impacto do ESCS nos scores tornou-se menos acentuado no período considerado. Por outro lado, em França, Portugal, Luxemburgo e Espanha, o ESCS continua a ter um forte impacto nos resultados PISA.

 

É, no entanto, de notar que é em Portugal e na Polónia que se encontram mais de 64% de alunos com ESCS negativo, sem grandes variações entre 2003 e 2012. Entre os alunos pertencentes a classes desfavorecidas, 24% em Portugal e 29% na Polónia conseguem ultrapassar os 500 pontos na escala PISA, em 2012. Estes são os alunos resilientes, aqueles que, apesar das condições desfavoráveis de partida, são bem sucedidos na aprendizagem. É, ainda, de realçar que Portugal foi o país que mais reduziu a percentagem de alunos de ESCS baixo, e com resultados também baixos, de 52% em 2003 para 45% em 2012.

 

Os trabalhos de casa fazem diferença?

O tempo dedicado a trabalhos de casa pode ser um bom indicador da dedicação dos estudantes à sua aprendizagem e também da quantidade de trabalho autónomo exigida pelos professores. Deste modo, verifica-se que a Irlanda solicita, em média, mais de 7 horas de trabalho autónomo por semana, ao passo que na Finlândia a média é de apenas 3 horas. Em Portugal, este valor é, em média, de 4 horas semanais.

 

Em todos os países, são os alunos com scores iguais ou superiores a 500 que despendem mais tempo a realizar trabalhos de casa. Os alunos com bons resultados e de estatuto socioeconómico e cultural mais elevado são os que mais horas dedicam a esta atividade. Em Portugal, França, Holanda, Espanha e Irlanda é onde se verifica maior disparidade no tempo dedicado ao trabalho de casa entre alunos com melhores e piores resultados.

 

Contudo, a nível agregado, não se observa uma relação entre maior número médio de horas dedicadas à realização de trabalhos de casa e score médio dos países. Por exemplo, os alunos finlandeses dedicam pouco tempo a trabalhos de casa (3 horas) e o score PISA é elevado (519), ao passo que em Espanha o número de horas (6) é muito mais elevado e o score é relativamente baixo (484).

 

Em 2012, os alunos portugueses com scores acima de 500 dedicam mais tempo a fazer trabalhos de casa.

 

Os que não desistem chegam mais longe?

Não desistir, levar os problemas até ao fim e não ter medo de perguntas difíceis são atitudes diferenciadoras entre alunos com bons resultados e alunos com resultados mais fracos.

 

O indicador de perseverança (PERSEV) ilustra de forma clara que os bons alunos têm a capacidade de enfrentar as adversidades sem desistir. Em Portugal, esta diferença é muito expressiva e é curioso verificar que esta característica é transversal aos alunos com scores elevados independentemente do seu estatuto socioeconómico e cultural. Os bons alunos portugueses são os que revelam maior perseverança contrariamente aos alunos franceses, cujo nível de perseverança é muito baixo, mesmo em alunos com resultados elevados. Apenas na Holanda, República Checa e Luxemburgo esta diferença de atitude entre alunos mais bem preparados e alunos mais fracos se dilui.

 

O indicador de perseverança (PERSEV) deriva das respostas dos alunos às questões sobre a sua atitude face a: não desistir, persistir nos problemas difíceis, manter-se interessado, tentar sempre melhorar e tentar alcançar a perfeição.

 

Em 2012, entre os alunos portugueses de ESCS negativo com scores baixos, cerca de 45% assumem que nunca ou quase nunca desistem, enquanto entre os colegas de ESCS negativo, mas com scores mais elevados esta percentagem ascende a cerca de 75%.

 

De quem depende o sucesso?

O esforço é a característica mais reconhecida por todos os alunos como motor de sucesso.

 

Na maioria dos países, apenas cerca de 10% dos alunos consideram que ser bem-sucedido depende do professor, não existindo diferenças assinaláveis entre os diferentes grupos de alunos considerados.

 

Quando questionados sobre se o sucesso na aprendizagem depende de si próprio, verifica-se alguma diferenciação entre os vários grupos, sendo que os alunos com scores mais elevados tendem a responsabilizar-se mais. Em Portugal, cerca de 50% dos alunos com melhores resultados respondem que ser bem-sucedido é da sua responsabilidade.

 

Para tentar perceber quais as características dos alunos portugueses com melhores resultados, realizaram-se duas análises de regressão logística, considerando na primeira os alunos de Estatuto Socioeconómico e Cultural baixo (ESCS < 0) e na segunda o conjunto de alunos de estatuto mais privilegiado (ESCS ≥ 0). O objetivo da aplicação desta metodologia consiste em detetar as variáveis que melhor discriminam os alunos com sucesso (scores ≥ 500) dos alunos com insucesso (scores < 500). Na representação gráfica apresentada acima, ilustra-se, para cada variável, a estimativa da probabilidade (mantendo tudo o resto constante) de o aluno pertencer ao grupo de sucesso. Quando essa estimativa é superior a 0,5, significa que os alunos com valores mais elevados nessa variável têm uma maior probabilidade de pertencer ao grupo de sucesso.

 

O esforço é a característica mais reconhecida por todos os alunos como motor de sucesso, sendo mais realçado pelos alunos com scores iguais ou superiores a 500. Na Suécia, por exemplo, mais de 60% dos bons alunos reconhecem o esforço como determinante para o sucesso. Em Portugal, esta percentagem é de 60% para os bons alunos de classes sociais mais favorecidas e de cerca de 50% para os colegas de ESCS mais baixo, mas com resultados igualmente bons.

 

O que diferencia os alunos com melhores scores?

Os rapazes apresentam uma ligeira vantagem em relação às raparigas nas classes sociais mais desfavorecidas. A perseverança, embora sendo um atributo importante, acaba por ser pouco diferenciadora quando contrastada com a autoconfiança e a eficácia na resolução de problemas, não tendo qualquer impacto quando o ESCS é positivo. É interessante verificar que os bons alunos de classes mais favorecidas se distinguem mais pela autoconfiança, enquanto os seus colegas de classes menos favorecidas, apesar de menos autoconfiantes, se diferenciam por serem, na prática, realmente eficazes na resolução de problemas. No entanto, os bons alunos de ESCS mais baixo declaram menos vontade em enfrentar e resolver situações complexas.

 

Isto é, verifica-se que a eficácia e a autoconfiança dos alunos tem um alto poder determinante na probabilidade de sucesso. A pergunta que fica é: como estimular estas características em quem não as demonstra?

 

O senso comum em educação ganhou larga expressão nas últimas décadas. A progressiva mediatização dos problemas do sistema de ensino tem conduzido à consagração de adquiridos sobre a educação que nem sempre se sustentam em evidência científica.

 

Tendo esta questão em conta, o Projeto aQeduto: avaliação, qualidade e equidade em educação visa explicar, através de uma linguagem acessível - mas sem desvalorizar o rigor científico na análise das relações estudadas - a variação dos resultados dos alunos portugueses nos testes PISA, tendo em conta três eixos fundamentais: os alunos (alterações na condição social, económica, cultural, comportamental e motivacional dos alunos e das famílias), as escolas (mudanças na organização escolar) e o país (variações nas condições económicas a nível macro do país).

 

Fonte: Visão