Na escola onde se combate o abandono com o ensino à distância

20/06/2019 12:15

No ranking nacional, ordenado com base no resultado dos exames, a Escola Fonseca Benevides, em Lisboa, não ganha ouro, prata ou bronze. Mas é um exemplo num serviço único no país. Todos os dias, em direto para qualquer sítio onde haja alunos que precisem, um grupo de professores luta contra o abandono escolar de jovens que, de outra forma, não poderiam estudar. Câmara, áudio… ação!

Texto de Catarina Reis

Fotografias de Orlando Almeida/Global Imagens

 

Ensino à distância. Dito assim faz lembrar a Telescola dos anos 1960 aos 80, presença cativa no horário da tarde da RTP. Mas qualquer analogia com o que ali acontece é, na verdade, um grande mal-entendido. Nesta escola de Alcântara, em Lisboa, os alunos do ensino regular básico e secundário aprendem longe do estabelecimento físico onde estão inscritos. Em comum têm a vida itinerante – por motivos desportivos, culturais ou pelas ocupações dos pais.

A Escola Secundária de Fonseca Benevides foi pioneira neste tipo de ensino. Os rankings nacionais, baseados nos resultados dos exames, que desde há anos a colocam no fim da tabela, explicam-se facilmente ao olhar para o universo que projeto educativo do Ensino à Distância (EaD) acarreta, garantem os professores.

A começar pelas salas de aula. Muitas foram transformadas e já não há mesas para os alunos que chegam aos pares, nem quadro para escrever apontamentos sobre a matéria. O que em tempos foi o templo do programa educativo é agora uma espécie de call center. Nas mesas, divididas por biombos pretos, sentam-se os professores, de microfone e auricular no ouvido, atentos ao ecrã de computador à sua frente. É dentro dele que estão os seus alunos.

 

 

Professora há mais de três décadas, há dois anos que Maria Teresa Santos se tornou docente no Ensino à Distância (EaD) da Fonseca de Benevides. Num dos cantos da sala, ajuda os alunos do 8º A2 a prepararem um debate para a disciplina de Português. Fala com João, que se mudou para a Madeira com os pais há algum tempo, mas também com Catarina, uma mãe adolescente. Da turma fazem ainda parte Sandy, contorcionista num circo, itinerante de profissão. E Amanda, filha de pais pastores evangélicos. Todos eles estiveram a um passo de deixar a escola para trás. Encontraram no EaD uma solução para continuar a progredir na escola. O início com cada aluno, conta a professora, é sempre um enorme desafio.

 

O projeto nasceu em 2010. Na altura era designado de “Escola Móvel” e ainda há alunos que o conhecem assim. A ideia partiu da Direção-Geral da Educação (DGE), como combate ao abandono escolar. “Havia uma franja de alunos que não se estava a conseguir escolarizar”, lembra o subdiretor da escola secundária. António Monteiro conta que a Fonseca Benevides foi escolhida como escola de acolhimento devido ao seu “pendor para as tecnologias” e, quando a DGE percebeu que seria incapaz de suportar os custos, o encargo ficou à responsabilidade da escola-sede.

Num canto da sala, uma professora fala com João, que se mudou para a Madeira com os pais, e com Catarina, uma mãe adolescente. Da turma fazem ainda parte Sandy, contorcionista num circo, e Amanda, filha de pais pastores evangélicos. Todos estiveram a um passo de deixar a escola.

Podemos encontrar “qualquer coisa muito parecida ali na Escola Secundária de Camões, que tem ensino noturno”, acrescenta o professor de Filosofia. E em Mangualde “está neste momento qualquer coisa a nascer”. Mas “nada do que se encontra aqui está realmente replicado em qualquer outro canto do país”.

Na mesma sala onde Maria Teresa leciona português, outros professores ensinam também história e físico-química. Ao longe, é possível ouvir uma voz de sotaque britânico que dá uma aula de inglês. De vez em quando, tiram dúvidas uns entre os outros, quando o microfone se desliga por breves momentos.

 

Feirantes, atletas, artistas de circo

Espanha, Portugal. Portugal, Espanha. E assim vai sendo, sempre em movimento. Celina Mariani, de 15 anos, não conhece outra vida. É circense desde que se conhece, embora só tenha subido a palco a partir dos 12 anos. Nasceu na Galiza, praticamente dentro da tenda do Circo Mundial Mariani, onde trabalha grande parte da família.

Entre as tentativas de perceber qual a mais-valia da rapariga para o negócio familiar e os espetáculos de hulla hoop, Celina tentou estudar no ensino regular presencial. Mas não demorou muito até compreender que seria difícil conciliar a escola com as constantes viagens entre dois países – e cinco performances por dia em épocas festivas. Por isso, aconselhada por outros membros da família e colegas que tinham decidido o mesmo, inscreveu-se no ensino à distância da Escola Secundária de Fonseca Benevides, quando estava na transição do 4º para o 5º ano. Neste momento está a terminar o 9º ano. “Era a minha melhor opção.”

“Mesmo que não consiga assistir a uma aula, posso revê-la mais tarde”. Este tipo de aprendizagem à distância conjuga o ensino síncrono com assíncrono. O aluno tanto pode estar presente numa aula, como pode posteriormente aceder aos conteúdos lecionados na mesma, caso não tenha tido a possibilidade de comparecer. Mas há faltas para quem não está, embora a justificação da ausência seja mais facilmente tolerada do que no típico ensino presencial.

 

A partir desta escola em Alcântara, vários professores dão aulas a estudantes que vivem a milhares de quilómetros. ©Orlando Almeida/GI

 

Como Celina há muitos outros. “São alunos filhos de itinerantes (feirantes ou circenses), filhos de emigrantes (cujos pais quiseram que eles continuassem no ensino português), de pastores evangélicos, crianças em risco de abandono escolar (muitos encaminhados por um tribunal ou pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens) e vítimas de bullying”, diz a coordenadora do EaD, Graça Silva. A maioria deles, conta, chegam “desmotivados”, “sem acompanhamento familiar” ou qualquer “ambição profissional”.

Mas há também, e muito recentemente, os alunos que são atletas de Alto Rendimento (AR).Há dois anos que a Escola Secundária Fonseca Benevides é uma Unidade de Apoio ao Alto Rendimento Escolar. Com a abertura do ensino à distância junto desta faixa de estudantes, permite que eles consigam conciliar a exigente prática desportiva com o sucesso escolar.

Os rankings não fazem sentido, diz o subdiretor da escolar. “Estamos comparar alunos com vidas mais estáveis com outros que estão constantemente a deslocar-se com os pais na feira, que aos 18 anos sabem que o pai vai obrigar a casar-se, ou que ainda adolescente vai pegar no circo da família.”

O número de alunos neste regime tem vindo a crescer. O problema deles, porém, “não é a questão do abandono escolar”, diz Rui Marques, um dos coordenadores do programa de AR da Fonseca Benevides. “É a gestão do tempo.”

 

Os feirantes e circenses, por outro lado, continuam a ser os que mais desaguam nesta escola. Mas são, muitas vezes, “alunos que só durante o primeiro ciclo passaram por dez escolas diferentes por ano. Estavam 15 dias num lado, os pais mudavam-se e eles iam para outro. Claro que chegam ao 5º ano sem bases, completamente inadaptados”.

E há ainda os alunos que, por força da sua cultura, tendem a abandonar a escola mais cedo. Como é o caso da comunidade cigana. Mas o subdiretor António Monteiro garante que já está a assistir a uma mudança de paradigma. “Temos tido alunas ciganas que já têm intenções de prosseguir para o ensino superior. É uma conquista extraordinária.”

Um estudo nacional do Ministério da Educação sobre esta comunidade comprova-o. O relatório, datado de 2018, concluiu que o número de jovens de etnia cigana nas escolas duplicou em 19 anos. E embora os que chegam às universidades continuem a ser poucos, o número também está a aumentar. Numa entrevista ao DN, em abril deste ano, o gestor do programa Operacional de Promoção da Educação (OPRE), Bruno Gonçalves, dizia que enquanto “há dez anos seriam cerca de 30”, agora rondam os 80 por ano. E a Fonseca Benevides é o local onde muitas destas sementes começam a ser plantadas.

Mas a posição da escola no ranking nacional continua a ser a força da sua reputação, principalmente quando comparada com a escola vizinha, a Rainha D. Amélia, considera conceituada. Por vários anos, devido às notas dos exames dos alunos que a frequentam, a Fonseca Benevides ficou entre as piores escolas do país e em 2018 arrancou uma média geral de apenas 4,87 nas provas nacionais (de 0 a 20).

 

 


António Monteiro, subdiretor da escola, Graça Silva, coordenadora do Ensino à Distância, Helena Santos Brites, professora de História, e Rui Marques, coordenador do programa para atletas de Alto Rendimento. ©Orlando Almeida/GI

 

Graça Silva, coordenadora do EaD, diz que isso é “muito simples de explicar”. E António Monteiro, subdiretor da estabelecimento de ensino, acredita mesmo que a comparação por rankings “não faz sentido, o que se percebe facilmente ao contactar com a realidade dos alunos da escola”. “Estamos comparar alunos com vidas mais estáveis com outros que estão constantemente a deslocar-se com os pais na feira, que aos 18 anos sabem que o pai vai obrigar a casar-se, ou que ainda adolescente vai pegar no circo da família.”

 

Professores motivados pela missão

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se.” É assim que Graça, que além de coordenadora do projeto também é professora de matemática e ciência, descreve a sua passagem do ensino regular presencial para o ensino à distância. E a professora de português Maria Teresa também se revê na expressão.

Já lá vão décadas desde que começou a dar aulas e já perdeu a conta por quantas escolas passou. Há dois anos, aceitou o desafio de ir para a Fonseca Benevides. “Quando cheguei a esta escola não estava muito informada do que era o ensino à distância, mas foi uma possibilidade que me despertou bastante interesse. Tivemos cerca de duas semanas de formação intensiva, para conseguirmos trabalhar facilmente nas plataformas necessárias”, conta. O início, não esconde, “foi difícil”. Mas confessa-se motivada todos os dias, muito pela diferença que faz na vida destes alunos.

Na escola, como em todas as outras, há diretores de turma – cada uma com máximo de vinte alunos. Mas há também os chamados tutores, professores que têm por missão estar em constante contacto com o aluno e as famílias, a fim de os motivar para continuarem nos estudos. São normalmente quem melhor conhece a realidade que estes estudantes vivem do outro lado do ecrã. Helena Santos Brites, 33 anos, professora de história, garante que não é por estarem distantes que se torna impossível criar empatia com os alunos. Considera, aliás, que através deste método de ensino “cria-se muito mais empatia” com eles. Tanto que muitos deles já decidiram percorrer a cidade ou o país para verem, ao vivo e a cores, os professores que todos os dias lhes fazem companhia num computador.


 

O mais interessante, segundo o subdiretor da escola, é ser testemunha assídua da vida de cada um. “É muito interessante contactar com aquilo que é o modus vivendidos alunos, que é o espaço em que cada um está inserido,” E António Monteiro recorda uma história: “num colóquio ao qual fui assistir, uma professora do ensino superior mostrava uma fotografia de uma aluna feirante a estudar à distância, atrás de uma banca de roupa na feira, e congratulava-se por terem conseguido integrar esta aluna. No final, disse-lhe ‘olhe, isso é o que acontece todos os dias na Fonseca Benevides’”.

Deste lado do ecrã, os professores artilham-se de tecnologia, para a qual tiveram de ser formados. Mas muito mudou desde então. As salas que vemos hoje “correspondem ao fruto de anos de evolução”, lembra António. No início do projeto, tudo o que tinham era “uma plataforma Moodle, um chat e o recurso sistemático a envio de ficheiros”. Não havia, por isso, tanta capacidade de controlo dos alunos.“Eu, por exemplo, hoje em dia tenho uma grande preocupação em que os alunos tenham a câmara ligada. E consigo saber uma série de coisas sobre ele se o estou a ver. Nos primórdios, podia acontecer o aluno nem estar lá. Neste momento, isso não acontece. E consigo perceber se está mesmo a seguir a minha aula, se está interessado.”

Não é a distância que impede a empatia com os alunos. E muitos já percorreram a cidade ou o país para verem, ao vivo e a cores, os professores que todos os dias lhes fazem companhia num computador.

E como é que se pede a um aluno para fazer exercícios matemáticos se não há um quadro comum numa qualquer sala física? Além das habituais salas de comunicação por ecrã, há ainda salas de quadros interativos, nos quais os alunos e professores podem ver em tempo real o que está a ser escrito ou desenhado. São ferramentas recentes para melhorar cada vez mais a interação entre um lado e outro.

Os desafios atuais, diz o professor António, já não passam pela tecnologia, mas sim pela estabilização do corpo docente, constantemente em rotação. “Era interessante que não houvesse tanta mobilidade do corpo docente”, porque os custos de formação são elevados e na totalidade cobertos pela própria escola.

Nestas salas, respira-se a mudança ou a procura por ela. São feitas de professores com vontade de mudar o mundo a partir do seu pequeno ecrã.

 

[Nota: Ao longo de vários dias, a DN Life tentou saber junto da direção da escola e da Direção-Geral de Educação qual é o panorama geral do Ensino à Distância em Portugal, nomeadamente o número total de alunos que beneficia deste regime, quanto professores existem, quantos atletas de alto rendimento tiram partido do programa, quais os anos de escolaridade com mais inscritos no EaD, etc. Até agora não obtivemos resposta, apesar dos vários contactos efetuados.]